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publicado em 29 Ago 2026

Uma profunda leitura de Quem rasgou os meus lençóis de linho? por Joaquim Margarido

“Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?”, de Dora Gago, é um livro ditado pela memória, pela experiência e pela literatura. Depois de “Palavras Nómadas” e “Floriram por Engano as Rosas Bravas”, nos quais a autora evidencia uma enorme acuidade em apreender Macau nos seus múltiplos contrastes, este livro constitui um regresso a uma cidade simultaneamente reconhecível e estranha, fechada sobre si mesma pela pandemia e pelas rigorosas medidas de confinamento. Nesse território suspenso, onde o luxo dos casinos convive com a miséria dos trabalhadores migrantes, cruzam-se Ana Cláudia, Jenny e Kate, três mulheres com histórias, feridas e desejos muito diferentes. Com elegância e uma enorme subtileza, a romancista aproxima estas vidas sem forçar encontros nem transformar coincidências em artifícios narrativos. As personagens tocam-se, contaminam-se, deixam marcas umas nas outras, como se pertencessem a uma mesma cartografia da fragilidade. É tempo de expôr as contradições de uma sociedade onde a prosperidade coexiste com a fome, a vigilância convive com a solidão e os mais vulneráveis, sobretudo as mulheres, suportam o peso maior da violência, da precariedade, do desemprego e da exclusão.» (...)

A escrita é sensorial, por vezes febril, capaz de transformar um perfume, um vestido vermelho, um abraço ou uma mesa de jogo em sinais de desejo, obsessão ou desespero. As imagens da aranha e da serpente, o dragão, os rituais chineses, os fantasmas e os sonhos participam dessa atmosfera inquietante. E há ainda a presença tutelar de Camilo Pessanha, de Maria Ondina Braga e de Lídia Jorge, entre outras referências, numa escrita que assume a literatura como memória, diálogo e matéria de reinvenção. (...)

Entre o barrocal e Macau, entre a memória e o presente, entre a loucura e a sanidade, Dora Gago constrói um romance de fragmentos que teimam em agregar-se. O título, tomado de um verso de Pessanha, anuncia desde logo essa poética da rasgadura: há qualquer coisa que foi violentamente interrompida, mas também qualquer coisa que insiste em permanecer. Dora Gago mostra que, quando tudo parece desfeito - o amor, a estabilidade, a identidade, a própria ideia de futuro -, sobrevivem a linguagem, a memória e a capacidade de continuar. É nesse gesto frágil de resistência, entre feridas e metamorfoses, que a literatura de Dora Gago encontra a sua mais funda humanidade.

Dora Gago

Este é um espaço de viagem, cais de partida e de chegada, pela literatura, pela escrita, pelo mundo e pela vida.

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